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A TEOLOGIA DO MARTÍRIO

Posted by Antonio maximino

A TEOLOGIA DO MARTÍRIO: O PROFETA ELIAS



Acabe fez saber a Jezabel tudo quanto Elias havia feito e como matara todos os profetas à espada. Então, Jezabel mandou um mensageiro a Elias a dizer-lhe: Façam-me os deuses como lhes aprouver se amanhã a estas horas não fizer eu à tua vida como fizeste a cada um deles. Temendo, pois, Elias, levantou-se, e, para salvar sua vida, se foi, e chegou a Berseba, que pertence a Judá; e ali deixou o seu moço. Ele mesmo, porém, se foi ao deserto, caminho de um dia, e veio, e se assentou debaixo de um zimbro; e pediu para si a morte e disse: Basta; toma agora, ó SENHOR, a minha alma, pois não sou melhor do que meus pais. Deitou-se e dormiu debaixo do zimbro; eis que um anjo o tocou e lhe disse: Levanta-te e come. Olhou ele e viu, junto à cabeceira, um pão cozido sobre pedras em brasa e uma botija de água. Comeu, bebeu e tornou a dormir. Voltou segunda vez o anjo do SENHOR, tocou-o e lhe disse: Levanta-te e come, porque o caminho te será sobremodo longo. (1 Rs 19.1-7)

As ameaças são um prenúncio verbalizado do martírio. Jezabel foi contundente e firme: "Façam-me os deuses como lhes aprouver se amanhã a estas horas não fizer eu à tua vida como fizeste a cada um deles". Elias tinha um claro conhecimento do poder e da fama de Jezabel, a matadora de profetas (1 Rs 18.13). Elias, diante da informação, parte em fuga motivado pelo medo do martírio e pelo instinto natural da preservação da vida (1 Rs 19.3). Um covarde? Não, um homem sujeito às mesmas fraquezas que nós (Tg 5.17).

Na vida de um profeta a possibilidade do sofrimento e da morte estão sempre presentes. O chamado profético pode ser considerado com um convite ao martírio. Foi assim com o profeta Elias, que bem afirmou: "não sou melhor do que meus pais" (v. 4b).

Profetas sentem medo. O medo, que é um dispositivo emocional que nos faz agir com cuidado, preventivamente e cautelosamente, pode circunstancialmente provocar algumas outras reações ou crises emocionais. Uma crise depressiva, caracterizada pelo isolamento (deixou o seu moço), pela inércia (se assentou debaixo de um zimbro), pela mudança do estado de seu ânimo e pelo pedido da morte se apoderou de Elias (v. 4). De sentado, Elias deitou-se e dormiu.

O que você acha que Deus faz com os seus valentes, quanto estes experienciam crises de fraquezas e temores, descarta-os? Não. O Senhor nos conhece, e por isso nos socorre nestes momentos. Um mensageiro angelical de Deus foi enviado para tratar Elias. O tratamento envolveu um toque (contato e estímulo sensorial) e uma palavra de ânimo "levanta-te e come". Foram providenciados também água e pão, que são elementos eficazes na recuperação de debilidade psicossomática (hidratação e nutrição). Elias comeu e bebeu, mas tornou a deitar-se.

O Senhor não desiste facilmente de nós. O anjo retornou, e mais uma veze tocando-o (estímulo sensorial), disse (estímulo verbal): "Levanta-te e come, porque o caminho te será sobremodo longo" (v. 7). Não havia simplesmente a necessidade de superar a crise depressiva, originada dos medos e temores de Elias, mas de continuar o projeto que Deus tinha para a sua vida, de cumprir o seu ministério profético.

Levantou-se, pois, comeu e bebeu; e, com a força daquela comida, caminhou quarenta dias e quarenta noites até Horebe, o monte de Deus. Ali, entrou numa caverna, onde passou a noite; e eis que lhe veio a palavra do SENHOR e lhe disse: Que fazes aqui, Elias? Ele respondeu: Tenho sido zeloso pelo SENHOR, Deus dos Exércitos, porque os filhos de Israel deixaram a tua aliança, derribaram os teus altares e mataram os teus profetas à espada; e eu fiquei só, e procuram tirar-me a vida. Disse-lhe Deus: Sai e põe-te neste monte perante o SENHOR. Eis que passava o SENHOR; e um grande e forte vento fendia os montes e despedaçava as penhas diante do SENHOR, porém o SENHOR não estava no vento; depois do vento, um terremoto, mas o SENHOR não estava no terremoto; depois do terremoto, um fogo, mas o SENHOR não estava no fogo; e, depois do fogo, um cicio tranquilo e suave. Ouvindo-o Elias, envolveu o rosto no seu manto e, saindo, pôs-se à entrada da caverna. Eis que lhe veio uma voz e lhe disse: Que fazes aqui, Elias? Ele respondeu: Tenho sido em extremo zeloso pelo SENHOR, Deus dos Exércitos, porque os filhos de Israel deixaram a tua aliança, derribaram os teus altares e mataram os teus profetas à espada; e eu fiquei só, e procuram tirar-me a vida. Disse-lhe o SENHOR: Vai, volta ao teu caminho para o deserto de Damasco e, em chegando lá, unge a Hazael rei sobre a Síria. A Jeú, filho de Ninsi, ungirás rei sobre Israel e também Eliseu, filho de Safate, de Abel-Meolá, ungirás profeta em teu lugar. Quem escapar à espada de Hazael, Jeú o matará; quem escapar à espada de Jeú, Eliseu o matará. Também conservei em Israel sete mil, todos os joelhos que não se dobraram a Baal, e toda boca que o não beijou. (1 Rs 19.8-18)

Com o vigor físico restaurado, Elias caminhou até Horebe, o monte de Deus. Ao chegar, entrou numa caverna onde passou a noite. O que estaria Elias a fazer? Descansando da longa jornada de quarenta dias e quarenta noites? Não. Diante da palavra do Senhor que lhe inqueria, a resposta de Elias é reveladora. Alegando ser zeloso pelo Senhor diante da rebeldia, idolatria e violência de Israel, que matara os santos profetas, Elias manifesta o medo do martírio ainda latente em sua alma: "... eu fiquei só, e procuram tirar-me a vida".

O tratamento do medo e da crise depressiva de Elias é retomado. É preciso persuadir o paciente a sair do enclausuramento físico, para depois libertá-lo do enclausuramento dos temores da alma: "Sai e põe-te neste monte perante o SENHOR". O processo de tratamento implica em dar um passo de cada vez. A fragilidade emocional de Elias é compreendida pelo Senhor, que pacientemente lhe dirige mais uma vez a voz. O profeta, mesmo diante da intervenção divina ainda teme. Com o rosto envolto numa capa, Elias se coloca na entrada da caverna. Ele se encontra a meio caminho da superação ou de uma recaída.

O tratamento continua com uma abordagem divina terapêutica: "Que fazes aqui, Elias?", lhe pergunta o Senhor. A resposta de Elias é a mesma dada quando estava no interior da caverna (v. 10 e 14). O Senhor entende a necessidade da verbalização do medo do martírio, para depois ser superado. Para a superação do medo do martírio, desencadeador daquela crise depressiva, o Senhor faz duas coisas. Em primeiro lugar, Elias teria que voltar pelo caminho trilhado até ali, ou seja, na superação do medo do martírio há uma necessidade de trilhar de volta o caminho que se trilhou alimentado pelo medo. Em segundo lugar, novas responsabilidades lhe são atribuídas com um voto de confiança da parte do Senhor, trabalhando dessa maneira a autoestima do profeta: "...unge a Hazael rei sobre a Síria. A Jeú, filho de Ninsi, ungirás rei sobre Israel e também Eliseu, filho de Safate, de Abel-Meolá, ungirás profeta em teu lugar. Quem escapar à espada de Hazael, Jeú o matará; quem escapar à espada de Jeú, Eliseu o matara." (v. 15b-17).

Aquelas palavras com certeza provocaram na alma de Elias a reação desejada pelo Senhor. Ele se fortaleceu e animou-se. Mas, ainda lhe faltava a motivação final. Na tentativa de justificar o seu comportamento e temor, Elias por duas vezes, como é comum nos mártires, manifestou o sentimento de solidão, de estar lutando sozinho pela causa: "eu fiquei só". Para libertar Elias dessa ideia fixa e equivocada, dessa síndrome do mártir solitário, o Senhor lhe revela: "Também conservei em Israel sete mil, todos os joelhos que não se dobraram a Baal, e toda boca que o não beijou." (v.18).

Contando com a ajuda do Senhor na superação do medo do martírio, o profeta se ergue novamente e parte para cumprir o restante da sua missão, apesar da possibilidade real da perseguição, do sofrimento e da morte (v. 19-21).

Elias, o mártir em potencial, não experimentou uma execução, nem tampouco a morte por outras formas. Aprouve a Deus poupá-lo, transladando-o ao céu (2 Rs 2.11). De sua história aprendemos que o medo do martírio é comum aos homens, mesmo aos profetas do Senhor, e que a sua superação é necessária e possível, com a graça de Deus.

Continuemos e avancemos em nossa jornada, firmes na realização da obra de Deus, quer seja para vivermos, ou para morrermos.

A TEOLOGIA DO MARTÍRIO: O SACERDOTE ZACARIAS


Túmulo de Zacarias, Vale de Cedrom (Jerusalém)

Depois da morte de Joiada, vieram os príncipes de Judá e se prostraram perante o rei, e o rei os ouviu. Deixaram a Casa do SENHOR, Deus de seus pais, e serviram aos postes-ídolos e aos ídolos; e, por esta sua culpa, veio grande ira sobre Judá e Jerusalém. Porém o SENHOR lhes enviou profetas para os reconduzir a si; estes profetas testemunharam contra eles, mas eles não deram ouvidos. O Espírito de Deus se apoderou de Zacarias, filho do sacerdote Joiada, o qual se pôs em pé diante do povo e lhes disse: Assim diz Deus: Por que transgredis os mandamentos do SENHOR, de modo que não prosperais? Porque deixastes o SENHOR, também ele vos deixará. Conspiraram contra ele e o apedrejaram, por mandado do rei, no pátio da Casa do SENHOR. Assim, o rei Joás não se lembrou da beneficência que Joiada, pai de Zacarias, lhe fizera, porém matou-lhe o filho; este, ao expirar, disse: O SENHOR o verá e o retribuirá. (2 Cr 24.17-22)

Os fatos aqui narrados são vivenciados no período em que Joás reinava em Jerusalém. Nos dias do sacerdote Joiada (também chamado de Baraquias cf. Mt 23.35), o rei Joás sentiu o desejo de promover uma reforma estrutural na Casa do Senhor, sendo bem sucedido em seu intento (2 Cr 24.4-14). A importância de Joiada neste processo de reformar da Casa do Senhor está evidente nos v. 15 e 16: Envelheceu Joiada e morreu farto de dias; era da idade de cento e trinta anos quando morreu. Sepultaram-no na Cidade de Davi com os reis; porque tinha feito bem em Israel e para com Deus e a sua casa.

Com a morte de Joiada, os príncipes de Judá influenciaram de forma negativa o rei Joás, que se rendeu à idolatria, provocando assim sobre Judá e Jerusalém uma grande ira. Misericordioso e logânimo, o Senhor enviou profetas com o propósito de fazer com o rei, os príncipes e o povo se voltassem para Ele. Diante dos protestos, advertências e apelos dos profetas eles não se submeteram a vontade do Senhor, nem arrependidos se voltaram para a verdadeira adoração, e ao verdadeiro Deus (v. 17-19). Esse episódio nos remete ao fato de que na história do povo de Deus muitos líderes sucumbiram diante da pressão e da má influência daqueles que ocuparam cargos de confiança. Por quais razões o rei Joás cedeu? Medo de um levante e da perda do poder? Falta de firmeza na fé?

Diante de tamanha apostasia, ainda movido por amor e bondade, o Espírito de Deus se apodera de Zacarias, filho do sacerdote Joiada, que fala ao povo sobre as suas transgressões, e adverte sobre a impossibilidade de prosperarem, visto que por ter sido abandonado, o Senhor também os abandonaria.

Zacarias, superando qualquer tipo de medo, quer seja de perder privilégios ou até a própria vida, não se omite diante da grande responsabilidade de transmitir uma mensagem que em nada agradaria aos seus ouvintes. Que grande diferença de alguns mensageiros dos tempos bíblicos (e da atualidade), que pregam de acordo com a conveniência do momento, e apenas com o objetivo de agradar os seus ouvintes (e garantir com isso algumas agendas), quer sejam reis, príncipes ou o povo.

Firmado em suas convicções, e honrando o ministério sacerdotal honrado de seu pai, Zacarias se manteve firme. Há muitos filhos de líderes que ao se tornarem líderes acabam trilhando caminhos diferentes daqueles em que seus pais andaram, mas, como já citamos esse não foi o caso de Zacarias.

Diante das circunstâncias uma conspiração foi feita, e por mandado do rei, o sacerdote Zacarias foi executado. O texto bíblico revela um fato lamentável: o rei esqueceu de todo o bem que Joiada, o pai de Zacarias, lhe fizera. Não são poucos os casos daqueles que recebem o bem, mas que logo se esquecem dos seus benfeitores (ou dos familiares dos mesmos). Conheço casos de pessoas que ajudaram seus líderes, e o que receberam em troca foi o desprezo, a desconfiança e a ingratidão. A história está sempre se repetindo. O que muda é o tempo, o lugar, e os personagens.

Em pleno martírio, ainda movido pela coragem de um servo de Deus, Zacarias ousadamente declara: "O Senhor o verá e o retribuirá". Que grande verdade! O Senhor, o juiz justo (Sl 7.11), sabe retribuir a injustiça dos martirizadores e a fidelidade dos martirizados.


1 comentários:

  1. eugenio

    muito bom a teoria do martirio, nos edifica e ajuda a compreender o que Deus quer de cada um de nós ( meus agrAdeçimentos).

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